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China concentra um terço dos investimentos de montadoras no País

Projeção indica aportes de US$ 7,4 bilhões até 2030 para instalar capacidade de montar mais de 1 milhão de veículos/ano

Investimentos de fabricantes de veículos da China no Brasil, em voo solo ou em parceria com empresas locais, devem resultar em dez linhas de produção de nove marcas chinesas, que no horizonte até 2030 terão capacidade instalada para montar mais de 1 milhão de carros por ano.

Esta projeção foi elaborada por um grande fornecedor do setor, que já trabalha com estas montadoras na China e se prepara para fornecer componentes e sistemas a elas também no Brasil.

Segundo essas estimativas os fabricantes chineses e seus parceiros no País serão responsáveis por investir US$ 7,4 bilhões em suas operações brasileiras, o que equivale a um terço dos investimentos dos US$ 22 bilhões que todas as montadoras instaladas aqui estão fazendo até a virada desta década.

Mas os aportes devem ser ainda maiores, pois não entraram na conta alguns investimentos que fazem parte de programas maiores e estão misturados, como é o caso da Leapmotor com a Stellantis, da Caoa com a Changan e da Comexport para montar modelos da GM/Saic.

Também não estão consideradas possíveis injeções de capital de empresas que ainda não definiram se vão montar seus carros no Brasil ou explorar o mercado só com importações. Alguns desses fabricantes já começaram a vender no País, como Zeekr, Jetour e MG/Saic, e outros estão por vir no horizonte desta década, como Baic e Link & Co, que têm planos de chegar em 2027.

Importar e montar

O fato é que os valores bilionários não deixam dúvidas quanto as intenções dos fabricantes da China de fincar presença no Brasil e, no horizonte de apenas cinco anos, triplicar sua participação no mercado interno,  já na casa dos 10%.

O irresistível incentivo para produzir no Brasil está na retomada gradual dos impostos de importação para carros elétricos e híbridos, tanto montados como semimontados (SKD), que voltará aos 35% a partir de julho próximo. Com isto, quem quiser ter participação de mercado relevante deverá instalar linhas de montagem no País mais completas.

Mas que não se espere por grandes índices de nacionalização, pois toneladas de componentes e sistemas seguirão sendo importados da China, na forma de kits desmontados CKD ou peça a peça, tanto pelas montadoras como por fabricantes de autopeças.

Isto porque é o domínio de toda a cadeia com alta escala produtiva, na China, que garante baixos custos de produção e torna os carros de fabricantes chineses relativamente mais baratos do que os da concorrência. Sem isto as empresas igualam os custos nacionais mais elevados e perdem competitividade.

As novas linhas de produção

O Grupo Caoa, que desde 2017 é sócio da Chery e produz veículos da marca chinesa em Anápolis, GO, este ano traz para dentro de sua fábrica mais uma parceira da China, a Changan.

A empresa brasileira tem programa de investimento em curso de R$ 3 bilhões no período 2024-2028, que envolveu a duplicação da capacidade produtiva de 80 mil para 160 mil veículos/ano.

Mas existe a expectativa de que novos aportes podem ser confirmados nos próximos dias: em 26 de março a Caoa inaugura oficialmente a ampliação e a produção de modelos Changan, com perspectiva de aumentar a capacidade da planta para 200 mil unidades/ano.

A GWM, que iniciou operações de montagem no ano passado do Haval H6 na fábrica de Iracemápolis, SP, comprada da Mercedes-Benz no fim de 2021, tem o maior programa de investimento já anunciado por uma montadora chinesa no País: R$ 10 bilhões de 2022 a 2032.

No entanto, a capacidade da planta, em torno de 50 mil unidades/ano, é considerada insuficiente para a ambição de produzir anualmente de 250 mil a 300 mil carros no Brasil. Com os bons resultados de vendas que vem obtendo, a empresa já negociou a instalação de uma segunda fábrica no Espírito Santo.

Segundo informações ainda não confirmadas pela GWM, a nova linha deverá entrar em operação até 2029 com capacidade de 200 mil veículos/ano, e o investimento total esperado será aumentado para US$ 2,8 bilhões, cerca de R$ 15,4 bilhões pelo câmbio atual.

A BYD, que em 2023 comprou as antigas instalações da Ford em Camaçari, BA, investe US$ 1,1 bilhão no País e está construindo uma fábrica totalmente nova na Bahia. Com ambição declarada de tornar-se uma das três marcas de automóveis mais vendidas do mercado brasileiro, a fabricante instala no Brasil o seu maior complexo industrial fora da China, que chegará a 2030 com capacidade para produzir 300 mil unidades/ano.

Com investimento próprio de R$ 400 milhões a Comexport também reabriu no ano passado uma fábrica que foi da Ford, em Horizonte, CE, para montar sob licença os SUVs elétricos Spark e Captiva, importados semidesmontados em kits SKD da Saic/Wuling, sócia da General Motors na China.

Os carros são vendidos pela GM no Brasil com a marca Chevrolet. A capacidade inicial de montagem é de 10 mil unidades/ano, mas existe a expectativa de aumentar o grau de nacionalização, produzir carros para outras fabricantes e elevar a capacidade anual para 50 mil unidades.

A Leapmotor chegou ao Brasil, no fim de 2025, pelas mãos da sócia Stellantis, que representa a fabricante chinesa em mercados internacionais e anunciou planos para montar carros híbridos da marca em uma linha separada na fábrica Goiana, PE, com partes importadas desmontadas ou semimontadas, ainda a definir.

Segundo informações não confirmadas pela fabricante, a operação de montagem nacional deve começar só em 2027, com capacidade prevista de até 50 mil unidades/ano. O investimento faz parte do ciclo de R$ 30 bilhões que a Stellantis aplica no Brasil no período 2025-2030.

Com modelo de negócio similar, em 2025 a Geely chegou ao Brasil por meio de sociedade com a Renault. No fim do ano passado as duas sócias anunciaram investimento conjunto de R$ 3,8 bilhões para produzir novos carros de ambas as marcas em São José dos Pinhais, PR.

Já a partir deste ano está previsto o início da montagem do híbrido EX5 EM-i e do elétrico EX2 no Paraná. Existe o objetivo de avançar rápido com a nacionalização e fornecedores estimam que, até 2030, a Geely deverá ter capacidade para produzir 50 mil unidades/ano no Brasil.

A GAC, que há cerca de um ano e meio anunciou investimento de US$ 1 bilhão para produzir carros no Brasil, neste mês de março confirmou aporte um pouco maior, de US$ 1,3 bilhão, e anunciou formalmente associação com a HPE para montar veículos, eletrificados e a combustão, na fábrica do grupo brasileiro em Catalão, GO, a partir de 2027. A estimativa é chegar a 50 mil unidades/ano em 2030.

A Omoda Jaecoo, fabricante das marcas gêmeas pertencente ao Grupo Chery, começou a explorar o mercado brasileiro com importações no ano passado e desde então reafirma seu interesse em produzir no País, mas até o momento sem confirmar onde e como.

Informações não confirmadas pela empresa indicam investimento de US$ 1 bilhão para instalar capacidade de 150 mil unidades/ano. Uma das possibilidades seria a natural reativação da fábrica que a Chery inaugurou em Jacareí, SP, em 2014, e que, a partir de 2017, entrou na sociedade com o Grupo Caoa e foi fechada em 2022.

Pode ser difícil e custoso reabrir a planta e, por isto, o fabricante chinês ainda estuda todas as possibilidades antes de bater o martelo.


Foto: Divulgação

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Publicado por
Pedro Kutney

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