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O mercado vai crescer. Mas isso não significa que haverá espaço para todos.

Algumas empresas conseguirão ampliar seus volumes, enquanto outras perderão espaço mesmo em um mercado maior do que o atual

E se eu dissesse que, até 2030, o mercado automotivo brasileiro deve crescer cerca de 500 mil veículos, enquanto as marcas chinesas podem adicionar mais de 700 mil unidades no mesmo período? À primeira vista, a conta parece não fechar. Mas ela revela justamente uma das principais transformações em curso no setor: o crescimento do mercado já não será suficiente para acomodar todos os competidores.

Durante muitos anos, crescer no Brasil significava, em grande parte, acompanhar a expansão da demanda. Quando o mercado avançava, diversas montadoras conseguiam aumentar seus volumes ao mesmo tempo, ainda que em ritmos diferentes. Nos próximos anos, essa lógica tende a mudar. O mercado continuará crescendo, mas esse crescimento será distribuído de forma muito desigual. Algumas empresas conseguirão ampliar seus volumes, enquanto outras perderão espaço mesmo diante de um setor maior do que o atual.

Essa é a diferença entre perder participação e perder volume. Em um mercado em expansão, uma fabricante pode reduzir sua participação e, ainda assim, vender mais veículos. É exatamente o que ainda deve acontecer com parte das marcas em 2026. O crescimento do setor ajuda a suavizar a pressão competitiva e, em alguns casos, mascara uma redistribuição de mercado que já começou.

A partir de 2027, porém, essa dinâmica muda. A expansão do mercado desacelera, enquanto a oferta de produtos, marcas e tecnologias continua aumentando. Nesse momento, o avanço dos novos competidores deixa de depender apenas da chegada de novos consumidores e passa a ocorrer, cada vez mais, por meio da substituição direta de volumes já existentes.

Isso não significa que todas as montadoras tradicionais seguirão a mesma trajetória. Algumas deverão preservar seus volumes mesmo perdendo participação. Outras poderão reagir por meio da renovação de portfólio, especialmente em SUVs, eletrificados e segmentos de maior crescimento. Haverá também fabricantes que poderão enfrentar perdas mais estruturais caso não consigam acompanhar a velocidade dessa transformação.

O mesmo vale para as novas entrantes. O crescimento não deverá ser distribuído de forma homogênea entre elas. Escala, competitividade de produto, rede de distribuição, capacidade industrial e velocidade de execução continuarão sendo fatores decisivos. Em outras palavras, a origem da montadora, por si só, não será suficiente para determinar seu sucesso.

Outro ponto importante é que essa disputa deixa de estar restrita aos veículos elétricos e híbridos. A competição passa a atingir os principais segmentos do mercado brasileiro, incluindo SUVs, hatches, sedãs e picapes, ampliando seus impactos sobre portfólios, estratégias comerciais, investimentos e planejamento industrial.

O SUV, por exemplo, deixa de ser um porto seguro. Durante anos, muitas fabricantes compensaram a retração de outros segmentos por meio do crescimento dessa categoria. Agora, justamente o segmento que sustentou boa parte da expansão do mercado torna-se um dos principais campos de disputa. Nas picapes, especialmente nas categorias de maior valor agregado, a competição também tende a se intensificar. Nos hatches, a pressão ocorre em um segmento historicamente importante para volume, capilaridade e conquista de novos consumidores.

Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja se as marcas chinesas irão crescer. Elas irão. A questão que realmente importa é entender de onde virá esse crescimento, quais segmentos serão mais impactados e quais empresas estarão mais preparadas para responder a esse novo ambiente competitivo.

A indústria automotiva brasileira está deixando para trás o período em que o crescimento do mercado era suficiente para impulsionar praticamente todos os participantes. O setor continuará oferecendo oportunidades relevantes, mas exigirá decisões mais rápidas, maior precisão no planejamento de produto e uma capacidade muito maior de antecipar os movimentos da concorrência.

A próxima década da indústria automotiva brasileira provavelmente não será marcada apenas pelo crescimento do mercado, mas pela redistribuição desse crescimento. Mais importante do que prever quanto o mercado venderá será compreender quem conseguirá capturar essa expansão.


Foto: IA

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Publicado por
Murilo Briganti

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