Indústria

“Operações CKD e SKD são replicáveis por qualquer empresa, inclusive a Stellantis”

Herlander Zola, presidente da montadora, diz que busca soluções rápidas para sustentar a competitividade na América do Sul, mas cobra regras mais rígidas contra a montagem de kits no Brasil

A Stellantis, como seria de se esperar, não anda lá muito satisfeita com a torrente de marcas chinesas chegando ao Brasil com promessas de produção local e que, por enquanto, entende a empresa, se limitam mesmo à montagem de veículos trazidos da China semidesmontados ou totalmente desmontados, os chamados kits SKD e CKD.

Herlander Zola, CEO da montadora na América do Sul, não se furta em afirmar que se “a regra do jogo” seguir permitindo apenas a montagem, com pouco ou quase nenhum conteúdo local, não terá nenhuma dificuldade de fazer o mesmo, pelo período que julgar conveniente, com os carros da Leapmotor, marca do grupo também oriunda da China e que começará a ter veículos fabricados Goiana, PE, a partir deste ano.

A afirmação preocupa sobretudo por vir da montadora que lidera, com muita folga, as vendas de veículos no Brasil e na América do Sul — mercados nos quais deteve 29,3% e 22,6% das vendas em 2025, respectivamente, e entregou mais de 1 milhão de unidades.

É bom recordar também que o conglomerado automotivo global criada há exatos cinco anos, conta com meia dúzia de fábricas no Brasil, Argentina e Uruguai, além de enorme parque de fornecedores.

Goiana: veículos da Leapmotor montados “de acordo com as regras do jogo”.

Todo essa estutura e volumes garantem bom nível de competitividade e a defesa das atuais participações no Brasil e Argentina, mas apenas para o atual momento, faz questão de enfatiza Zola, à frente da operação desde outubro do ano passado.

“E em outros países da América do Sul não basta nem para o que está ocorrendo afora. São mercados abertos, como Chile, Colômbia, Peru e Equador, onde entram produtos produzidos fabricados na Ásia, especialmente na China, basicamente sem nenhum tipo de barreira. Isso permite competitividade muito maior do que conseguimos com veículos produzidos aqui”, destaca.

Zola, porém, diz que a Stellantis não pretende jogar a toalha. Ao contrário, a montadora está estudando e buscando soluções para aumentar a competitividade dos produtos e fábricas do Brasil e Argentina para fazer frente à voracidade chinesa por novos mercados .

“Certamente, dentro de muito pouco tempo, vamos ter soluções”, arrisca o executivo, sem dar detalhes. Limita´se a informar que serão encaminhados movimentos em várias frentes e que englobam, por cenrto produtos, mas também fábricas e volumes. “O pacote inteiro!”

Zola pondera que muitos dos entraves para que a indústria automobilística instalada na região consiga sustentar sua presença nos mercados vizinhos é a própria complexidade da América do Sul. O dirigente reclama da falta de padronização de regras e legislações dos vários, o que dificulta o desenvolvimento de produtos e aumenta custos para as montadoras que pretendam fazer das operações locais.

“É, sem dúvida, uma barreira. Muitas vezes, precisamos desenvolver produtos de baixo volume e específicos para alguns países que têm mercados pequenos. O Peru, por exemplo, consome 200 mil veículos por ano, a Colômbia, uns 250 mil. O Brasil, por outro lado, representa 58% das vendas da região.”

E é exatamente no maior mercado sul-americano que Zola diz confirmar o acerto das estratégias para assegurar a ponta do mercado até aqui:

 

“De 2019 para cá, quando as marcas chinesas cresceram muito, e já superam 10% de participação este ano, a Stellantis não perdeu mercado, pelo contrário. No primeiro bimestre, até ganhamos, o que comprova a força das marcas e do grupo diante de um mercado em rápida transformação”.

 

Ainda assim, o executivo diz esperar que o governo brasileiro, “que já vem aprovando barreiras”, olhe ainda mais para os impactos que as importações de veículos prontos e fábricas que têm apenas pequena parte de processos produtivos locais podem causar para o restante do setor, caso persistam por mais longo tempo.

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“Se as chinesas, de fato, não localizarem boa a produção, o restante da indústria vai sofrer muito. O modelo de negócios que envolve operações CKD e SKD, do jeito que ocorre hoje, é replicável por qualquer empresa ocidental, inclusive a Stellantis, num futuro muito próximo. E até, por que não?, utilizando a própria capacidade ociosa chinesa, entregando para empresas de lá a produção  e obtendo custos muito menores.”

De qualquer maneira, Zola já tem certo e divulgado que, em um primeiro momento, fará uso da mesma fórmula para extrair de Goiana os primeiros carros da Leapmotor.

Mas, enfatiza, com a possibilidade de usar o parque de 39 fornecedores alojados ao lado da fábrica pernambucana para localizar partes e componentes. Não refuta inclusive a chegada de novos parceiros, até mesmo chineses, caso a escala produtiva dos produtos veículos da Leapmotor permita.

“Mas só se for uma vantagem competitiva para nós”, aletra. “Isso está na mão daqueles que definem as regras do negócio. Se o modelo CKD e SKD for mais atraente e por mais tempo, será ele que vamos utilizar também. É preciso lembrar que objetivo de uma empresa é viabilizar o seu futuro por meio da rentabilidade. Sem rentabilidade não tem investimento, não tem futuro”, pontua o CEO.


Foto: Autoindústria

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George Guimarães

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