Carros elétricos, fora da China, não vão morrer mas estão matando as finanças de muitos fabricantes sediados nos Estados Unidos, Europa e Japão. A escolha obrigatória de uma só tecnologia para reduzir emissões de gases de efeito estufa dos meios de transporte terrestre – em vez de focar na redução de CO2 por todos os meios disponíveis – está cobrando preço alto da indústria, com redução de mais de US$ 60 bilhões nas apostas, até agora.

O valor com força de eletrochoque é a soma do que foi divulgado, desde o fim do ano passado até agora, por seis fabricantes de veículos em anúncios e balanços financeiros sobre cortes, cancelamentos, prejuízos, desinvestimentos e revisões de planos para produzir carros elétricos e seus componentes. Pode ser, portanto, que a cifra seja ainda mais alta ao ser adicionada por novos anúncios ou perdas ainda não divulgadas.

Com o cancelamento ou a redução de incentivos públicos, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, o custo do carro elétrico torna-se inviável pois o consumidor não quer ou não pode pagar o preço da descarbonização elétrica, enquanto a China segue incentivando e escalando a produção de modelos eletrificados com preços imbatíveis.

O resultado dessa combinação foi a adoção de medidas protecionistas contra os chineses – o que só ajuda a estancar o crescimento do mercado dos veículos a bateria nos países que adotam barreiras – e a consequente revisão dos planos dos fabricantes.

Futuro comprometido

Ao revisar os balanços das companhias os analistas estimam que de 25% a 30% destes US$ 60 bilhões sejam de prejuízos em dinheiro que impactam o caixa, causados por cancelamento de contratos com fornecedores ou de associações com outras empresas, as joint ventures, principalmente fabricantes de baterias.

A maior parte das perdas, portanto, está no futuro, no horizonte de 2028 a 2032, quando a situação refletirá a redução dos volumes de veículos elétricos que seriam vendidos – e não serão mais – e o consequente efeito cascata que isto provoca em toda a cadeia, com retração dos planos de investimento em pesquisa e desenvolvimento, recuo nas compras de máquinas, equipamentos e componentes que já estavam previstas para produzir os novos produtos, demissões em massa e apertos nas finanças que comprometem a evolução das empresas.

Com isto o orçamento da indústria para novas apostas fica sensivelmente apertado e a aversão ao risco cresce, colocando mais etapas para a aprovação de novos investimentos. O resultado é uma indústria mais lenta, muito menos propensa a gastar e inovar, o que pode comprometer o futuro de alguns fabricantes tradicionais e seus fornecedores, que perderão terreno para quem ainda tiver recursos para investir em novas plataformas e tecnologias.

Ao reduzir volumes os fabricantes não estão apenas perdendo mercado, mas também perdem escala e o domínio dos custos de produção.

A tirada de pé do acelerador dos carros elétricos já é sentida pela nova cadeia de componentes que começou a ser formada na Europa e nos Estados Unidos. Investimentos em fábricas de baterias já foram cancelados ou sensivelmente reduzidos – essas linhas de produção tem custos fixos elevados e quando há qualquer variação para baixo nas vendas de veículos eletrificados o negócio não para de pé. Especialistas dizem ser uma questão de pouco tempo até que fornecedores de softwares e sistemas eletrônicos também comecem a sofrer com cortes e renegociações de pedidos.

Somente nos Estados Unidos, após a retirada de incentivos à eletrificação do atual governo imperial de Donald Trump, os fornecedores estimam que vão perder contratos de fornecimento para um volume que era projetado em torno de 15 milhões de veículos elétricos e híbridos, que deixarão de ser vendidos nos próximos anos até 2030.

A expectativa dos fornecedores é de passar de um modelo que era de contratos crescentes para o modo de renegociações, multas e conflitos com os fabricantes, que projetaram aumentos expressivos das compras de novos componentes para veículos eletrificados, instigando investimentos da cadeia de suprimentos, e agora estão cancelando os planos.

Cortes e redefinições

Todos os fabricantes que anunciaram as perdas ou reduções de investimentos não desistiram do carro elétrico, mas rebaixaram as expectativas e estão remanejando seus planos para formatos mais flexíveis, com maior atenção a modelos híbridos – especialmente os EREVs, elétricos com autonomia estendida por geração de energia a bordo via motor a combustão – e retomada de aportes para produzir novos carros a combustão e seus motores.

• Stellantis – US$ 26,5 bilhões: O grupo divulgou a maior cifra em perdas e redução de investimentos em carros elétricos. Dentre as iniciativas para sanear os prejuízos do balanço a empresa anunciou o desinvestimento em uma fabricante de baterias – a LG ficará com 100% do negócio. Na Europa a companhia está retomando a produção de veículos a diesel enquanto a demanda por elétricos está em queda na região. Também investirá na produção de novos motores quatro-cilindros e modelos a combustão, dentre eles os novos Jeep Cherokee e Compass.

• Ford – US$ 19,5 bilhões: A companhia pôs fim à sociedade com a SK On para produzir baterias para veículos elétricos nos Estados Unidos. Também anunciou que a próxima geração da picape elétrica F-150 Lightining migrará para a arquitetura EREV, veículo elétrico de autonomia estendida equipado com motor a combustão para gerar energia a bordo.

• General Motors – US$ 6 bilhões: Retira investimentos de carros elétricos, assume perdas e redireciona US$ 4 bilhões para produzir motores V8 e picapes e caminhões a gás.

• Volkswagen/Porsche – US$ 6 bilhões: Além da queda das vendas de modelos elétricos o Grupo Volkswagen projetou impacto de cerca de € 5,1 bilhões no seu lucro devido às mudanças na estratégia de eletrificação da Porsche, que após registrar o pior desempenho comercial em dezesseis anos anunciou o adiamento do lançamento de novos modelos totalmente elétricos e decidiu manter a produção de motores a combustão e híbridos plug-in por mais tempo.

• Honda – US$ 1,7 bilhão: A fabricante japonesa revisou para baixo o investimento em carros elétricos, reduziu a meta de participação dos modelos a bateria em seu portfólio até 2030 e redobrou a aposta em híbridos.

• Nissan – US$ 1 bilhão: Com prejuízos bilionários acumulados nos últimos anos a fabricante sofre com produtos considerados desatualizado em comparação à velocidade da transição energética, problemas de fornecimento de componentes e a falta de uma linha forte de híbridos, que atualmente vendem melhor que os elétricos puros nos Estados Unidos.

Ocidente desce, China sobe

Cada passo atrás dos grandes fabricantes ocidentais de veículos é uma doação de terreno à China. Bem menos por preocupações ambientais e muito mais por estratégia pragmática, o país escolheu os elétricos para dominar a tecnologia e se livrar da tutela das empresas multinacionais.

Hoje a China tem incentivos, escala produtiva gigantesca e o maior mercado do mundo para sustentar sozinha sua indústria e ainda vender os excedentes a preços imbatíveis em qualquer país que os deixem entrar.
Analistas avaliam que talvez esta seja uma guerra perdida, pois já é tarde demais para a indústria ocidental reduzir o abismo de competitividade que se abriu para produzir carros elétricos em comparação com a China – só restam as medidas de proteção para conter os chineses.

Às custas de salvar o balanço financeiro os fabricantes ocidentais estão promovendo a redefinição da sua cadeia produtiva e a diminuição da indústria.


Foto: Divulgação

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