
Tudo aconteceu porque a Mercedes, naquele fatídico setembro de 1982, demitiu, num só dia, 5 mil funcionários. Ano difícil para o setor de caminhões e ônibus. Imaginem a zona que virou São Bernardo do Campo. O funcionário chegava e era encaminhado para o departamento pessoal da empresa.
O que aconteceria com tanta gente desempregada. Procurei o sindicato onde soube que muita gente estava voltando para seu lugar de origem. Tive três nomes para escolher. Um deles voltaria para Iguatu, no sertão do Ceará. E pra lá fui eu no dia 7 de setembro, 72 horas de ônibus em uma inesquecível viagem.
A cozinha – As primeiras horas foram tranquilas, ouvindo histórias aqui e ali. E constatando que a grande maioria voltava pra casa, depois de perder o emprego. Me desculpem, mas não lembro o nome do meu companheiro de viagem. Mas saibam que ele chegou em São Bernardo do Campo com três filhos – deixara um em Iguatu – e voltou com dois, pois um deles criara raízes em São Paulo.
Ao escurecer, um movimento no ônibus, com a maioria dos passageiros caminhando em seu interior. E um cheiro forte de comida invadiu o ambiente. E percebi que a razão do vai-e-vem era para colocar a marmita para esquentar na “cozinha”, uma plataforma colocada sobre o motor do ônibus, que ficava lá no fundão. A chapa, em geral de metal, esquentava e dava uma leve aquecida na refeição.
Bem, depois de duas noites a bordo e um pneu furado, apenas um, chegamos a Iguatu. Depois de apenas um banho (balde/chuveiro) em 72 horas, precisava de um de verdade.
Cheguei ao hotel, me registrei e corri pro quarto com banheiro. Ao ver que só havia uma torneira do chuveiro, fui até a recepção e perguntei se não tinha água quente.
– Quente até demais. Foi a resposta.
Eu não sabia, mas a temperatura média em Iguatu passa dos 35° e a caixa d’água fica a céu a aberto. A água estava quente. E muito!
Depois do banho fui almoçar. Fechei o quarto e estava colocando a chave sobre o balcão quando o recepcionista disse que não precisava, que podia deixar a porta sem tranca. Aleguei que tinha minhas coisas lá, máquina de escrever etc.
– Olha moço, conhecemos todo os hóspedes. O único desconhecido aqui é o senhor.
Constrangido, mostrei minha credencial de repórter de O Globo (Sucursal de São Paulo). Dei a ele um cartão de visita e fui comer uma deliciosa carne de sol no restaurante ao lado.
O vento – Antes de uma entrevista com o bispo, passeei pela cidade. Fui ao mercado municipal, andei pelas ruas, conversava com as pessoas, em sua maioria, receptivas, falantes, especialmente depois que me identificava como jornalista.
Bom, chegou a hora da entrevista com a autoridade eclesiástica da cidade (o prefeito estava fora) para falarmos das coisas da terra. Mas ele não era muito de falar.
Bem, quando fui caminhando até a casa dele, me deparei com uma cena muito curiosa. Dos dois lados da rua, as pessoas assistiam televisão do lado de fora da casa. A TV era colocada sobre uma pequena plataforma e as famílias ficavam lá, assistindo seus programas preferidos.
Mas o curioso era que todos, sem exceção, estavam sentados em cadeiras de balanço. Fui, entrevistei o bispo, rapidamente e, na volta, resolvi saber: por que as cadeiras de balanço?
Me aproximei, me identifiquei e perguntei se podia conversar um pouco. Aquele que parecia o chefe da família logo ordenou: “Ô muié, traga lá uma cadeira pro jornalista, que ele qué proseá um pouco”.
Ela trouxe uma cadeira de balanço e perguntei por que esse tipo de cadeira?
Simples, disse ele, assim não precisa usar a ventalora pra se refrescar. Sábia escolha.
Quando perguntei até que horas eles ficavam ali, na calçada, explicou que até que o vento chegasse.
Vento?
É – disse – todo dia, logo depois da novela das 9 (naquele tempo os programas tinham horário) bate um vento que vem lá da África, que refresca a cidade e a gente vai dormir. Olha, ele já vem vindo, anunciou.
Olhei ao longo da rua e, em ambos os lados, as cadeiras de balanço estavam sendo guardadas. O vento trazendo “a fresca” já chegara lá no começo da rua.
Logo chegou onde eu estava e a temperatura caiu agradavelmente.
Viu? Perguntou meu anfitrião. Toda noite é assim, o vento passa o dia dando volta ao mundo e chega aqui depois da novela das 9.
Boa noite!!!
Picape híbrida teve somente 1,8 mil unidades licenciadas em quase dois anos
O presidente da entidade prevề cerca de 10 mil visitantes entre os dias 17 e…
Primeiro SUV da plataforma Neue Klasse chega por aqui com autonomia de 570 km ao…
Algumas empresas conseguirão ampliar seus volumes, enquanto outras perderão espaço mesmo em um mercado maior…
Foram financiadas 3,78 milhões de unidades novas e usadas no primeiro semestre, 10,9% a mais…
Executivo responderá mundialmente pelo cumprimento de metas do grupo