A marca Fiat voltou ao topo do mercado brasileiro com participação de 22,1% em 2021, exatamente quando comemora seus 45 anos de produção nacional, iniciada oficialmente em julho de 1976. Mas esse resgate da posição que ocupou por mais de uma década e da qual estava longe há seis anos não veio sem um longo trabalho coordenado e iniciado bem antes, há cerca de três anos.

Em 2018, a marca iniciou plano estratégico que  objetivava reposicionar sua imagem e ao mesmo tempo assegurar uma renovada linha de produtos, capaz de elevar a percepção dos consumidores sobre os ganhos de tecnologia e qualidade dos automóveis e comerciais leves Fiat.

Para consolidar esse duplo salto, entretanto, a Stellantis se viu obrigada a trabalhar muito mais até nos, digamos, bastidores. A pioneira fábrica de Betim, MG, de onde saiu o primeiro 147, modelo inaugural da marca no País, foi submetida a um intenso programa de investimentos que resultou em, na prática, um novo complexo produtivo, com processos e tecnologias hoje benchmarking dentro e fora do grupo.

antonio filosa

Filosa: três anos de trabalho e investimentos para recolocar a marca Fiat no topo.

Os eloquentes números de mercado da Fiat em 2021 decorrem da disposição da quarta maior montadora do mundo de dispor, em parceria com os fornecedores, de R$ 16 bilhões no período de 2018 a 2024 e que tem alocada mais da metade – R$ 8,5 bilhões – somente para Betim.

É o maior montante aplicado em um único ciclo e que revela o quão vital era a transformação quase integral da planta erguida em três anos às margens da Rodovia Fernão Dias, na cidade da região metropolitana de Belo Horizonte,  até então com uma economia preponderantemente agrícola e uma população de não mais de 45 mil habitantes, dez vezes menos do que em 2020.

Com o 147 , seu primeiro carro nacional, a Fiat começou a transformar o perfil econômico de Betim e região

Automação e digitalização por meio de processos de manufatura avançada da indústria 4.0 dominaram os esforços para incrementar a qualidade, produtividade e eficiências na produção de automóveis mais sofisticados que já então eram gestados pela engenharia.

Simultaneamente, também foram concebidas novas áreas de desenvolvimento e que capacitaram Betim a desenhar, projetar, testar e produzir veículos de classe mundial.

O agora chamado Polo Automotivo de Betim, que em quatro décadas produziu mais de 16 milhões de veículos – mais de 20% para exportação, uma vocação histórica desde a década de 70 – , é uma das maiores fábricas de automóveis do mundo e a maior de toda a Stellantis, que conta com unidades produtivas na Europa, Estados Unidos, Ásia e Américas.

Betim pode produzir até 700 mil veículos por ano, além de 1,3 milhão de motores e transmissões

Sozinho, pode fabricar anualmente, seja para o mercado interno ou outros mercados, até 700 mil veículos. Mas tem mais: de lá podem sair a cada ano ainda 1,3 milhão de transmissões e de motores Fire e dos novíssimos Firefly e GSE Turbo.

Como que para manter a tradição, uma boa parte desses motores, 400 mil até 2022, já estava comprometida para exportação à Europa desde que uma nova linha de produção de 100 mil unidades e R$ 500 milhões de investimento foi inaugurada em março deste ano.

Flexível e versátil, o polo mineiro produz oito modelos de carros e comerciais leves, dos recém-lançados Pulse, o primeiro SUV nacional da Fiat, desenvolvido localmente, e Nova Strada, picape líder de vendas, ao Mobi, Argo, Fiorino, Uno, Doblò e Grand Siena.

ALÉM DOS PRÓPRIOS MUROS

“Investimos muito, inovamos sempre. Consolidamos um extenso e diversificado parque industrial automotivo”, enaltece Antonio Filosa, presidente da Stellantis para a América do Sul, ele mesmo responsável pela concepção e execução do plano de transformação de Betim desde 2018, quando assumiu a então FCA, Fiat Chrysler Automobiles.

Filosa se refere também ao cinturão de fornecedores de autopeças e componentes constituído na região e proximidades e que abastecem as linhas de montagem da montadora.

Complexo tem capacitação técnica para desenvolver integralmente um veículo a partir do primeiro conceito

São cerca de 120 empresas que asseguram produção Just In Time (JIT) e Just In Sequence (JIS), que eliminam a necessidade de estoques e contribuem para a competitividade da operação. Perto de 60% dos itens comprados pela Stellantis têm origem num raio de até 150 quilômetros da fábrica de Betim.

Foi a atração dessas empresas para o entorno que permitiu a expansão da capacidade produtiva ao longo de quatro décadas sem que um metro a mais fosse incorporado ao site original.

Linhas de montagem de automóveis, veículos e transmissões, engenharia, centro de design e dezenas de outras áreas seguem abrigados em de 2,2 milhões de metros quadrados, onde atuam 13 mil trabalhadores – metade do quadro da Stellantis na América do Sul.

DE PONTA A PONTA

A modernização consolidada nos últimos três anos permite que Betim cumpra agora todas as etapas que antecedem a chegada de um novo veículo às ruas:

• Conceito
• Definição de estratégia de produto
• Definição de parâmetros
• Desenvolvimento técnico
• Desenvolvimento de ferramental
• Verificação de processos
• Produção

Ou seja, no complexo mineiro os profissionais conseguem pensar um novo produto, desenvolvê-lo integralmente e produzi-lo.

O desenvolvimento de um novo carro, picape ou comercial leve em Betim começa no Hub Center, espaço de convergência dos departamentos de brand, produto, mercado e desenvolvimento de produto que conceituam o que será o novo carro, inclusive a partir de consultas aos clientes.

Nesse caldo de cultura são coletados os conceitos e ideias que sinalizarão o planejamento estratégico visão do produto e as definições mercadológicas que nortearão o projeto.

Esses conceitos começam a tomar forma e ter sua funcionalidade definida no Tech Center e Design Center, áreas que concentram mais de 2 mil engenheiros, designers e técnicos.

Só o Design Center ocupa 2,7 mil metros quadrados. Uma fração cabe à Sala Virtual, onde equipamento de alta definição reproduz o veículo em tamanho real, e outra parte ao UX Lab, User Experience, laboratório dotado de simuladores que reproduzem e avaliam o design interno e externo do futuro carro, além de seu comportamento em acelerações, freadas e outras situações de trânsito, dentre outras funcionalidades.

Alta tecnologia do projeto à linha de produção

Em outra área estratégia, o Development Center, espaço aberto, com 450 postos de trabalho, todas as ideias, desenhos e conceitos técnicos têm viabilidade econômica e de manufatura analisada.

Após a criação de um protótipo físico, a validação do veículo é feita por meio de vários testes físicos no Safety Center. Na área de 7,6 mil metros quadrados, são realizados, por exemplo, testes de impacto de até 4 toneladas a 100 km/h, situações que antes poderiam ser avaliadas somente em laboratórios do grupo na Europa ou Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, são validados processos de produção do veículo em linha e os parâmetros de qualidade. Várias unidades do novo modelo são submetidas a testes de rodagem para verificação de desempenho, segurança, conforto e vida a bordo. Tudo aprovado, o novo carro está pronto para ser lançado.

“Até 2001, fazíamos poucas etapas do processo de desenvolvimento de um veículo. Mas conseguimos acumular conhecimento e experiência, que nos tornaram capazes de desenvolver e projetar veículos a partir do zero”, recorda Marcio Tonani, responsável pelo Tech Center Stellantis South America, que reúne e coordena a área de engenharia da empresa.

Pierluigi Astorino, responsável pela Manufatura para a América do Sul, sintetiza o atual momento de Betim:
“A forma de produzir carros mudou completamente. Há 45 anos era muito manual. Hoje temos uma fábrica altamente tecnológica e as melhores práticas mundiais de inovação implementadas.”

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A versatilidade e competências alcançadas na planta mineira ainda impressiona um profissional tarimbado como Astorino, que acumula passagens em fábricas das quatro regiões do grupo no mundo e dirigiu o novíssimo Polo Automotivo Jeep, em Pernambuco.

“Não é algo comum uma fábrica ter capacidade de lançar a cada ano um novo carro. Isto significa ser competitivo, significa sucesso de mercado”.

As vendas no mercado brasileiro de 395,6 mil veículos Fiat de janeiro a novembro – 330 mil saídos de Betim – atestam a afirmação do executivo.

A Fiat tem quatro dos dez veículos mais vendidos no Brasil em 2021, três deles fabricados em Minas Gerais: Strada, Argo e Mobi.

E os produtos de Betim ainda fazem a dobradinha na ponta. A picape compacta é o veículo mais vendido do País, com 100 mil unidades licenciadas no período, seguida pelo Argo, com 80,1 mil emplacamentos.

E, como se não bastasse, as linhas de montagem de Betim serão compartilhadas por outro modelo em 2022. Já confirmado pela Stellantis, um SUV médio ganhará vida para reforçar o poder de fogo da Fiat no maior segmento de vendas do mercado interno.

A renovada e moderna Betim, promete a Stellantis, dará conta! Alguém dúvida?


Fotos: Divulgação