Esportivo elétrico tem desenho criticado mundialmente. "Há risco de destruírem um mito", disse Luca di Montezemolo, ex-CEO da marca italiana.

O Luce, primeiro carro elétrico da lendária Ferrari, marca que ocupa um dos lugares mais altos no panteão mundial das lendas sobre rodas — para não assegurar o primeiro — causou tantas reações como sempre causaram todos os lançamentos de “qualquer Ferrari”. Desta feita, porém, quase a totalidade contrárias ao projeto.
Menos do que o fato de ter sob a carroceria quatro silenciosos motores elétricos em vez dos admirados e barulhentos, ou afinados, propulsores a combustão, o que caiu como uma amarga bomba para os admiradores foi o desenho do novo esportivo, concebido sob a batuta de Jony Ive, ex-chefe de design da Apple.
Como gosto não se discute, é bom que os executivos da pequena cidade de Maranello, Norte da Itália, tenham em conta, além das infinitas condenações das redes sociais, a opinião do chamado mercado, que derrubou o valor das ações da montadora em 8,5% no mesmo dia que o Luce veio à luz, em 25 de maio.
É um retumbante episódio que entrará para a história de quase 100 anos da montadora, a despeito do que o futuro reservar para o Luce no que se refere às vendas.
No plano imediato, seria ao menos intrigante ouvir a opinião de especialistas de estúdios como Pininfarina, que tanto esteve associado à Ferrari, ou da Italdesign, de Giorgetto Giugiaro. Mas que, acertadamente, não devem fazer qualquer declaração a respeito.
Nessa impossibilidade, ficam também para a posteridade as frases do abalizado Luca di Montezemolo, que comandou a marca italiana por mais de uma década até 2014, após a morte do fundador Enzo Ferrari.
A indignação do executivo pode começar a ser medida pela próprio ato de se manifestar publicamente com relação a um novo produto de sua ex-empresa, algo no mínimo raro no universo automotivo.
“Se dissesse o que penso, prejudicaria a Ferrari”, disse Montezemolo à imprensa ao adentrar em um evento em Roma. “Há risco de destruírem um mito. Espero que pelo menos retirem o Cavallino Rampante [símbolo da marca] deste carro. Me desculpe.”
Não foi só. A “cereja no bolo” se deu quando, na sequência, Montezemolo foi indagado sobre o que então a Ferrari deveria fazer com relação ao mercado chinês. Foi duro e irônico: “Este ao menos é um carro que, com certeza, os chineses não copiarão!”
Mas a Ferrari depende do maior mercado individual mundial, onde os elétricos são opção clara de um plano de governo e suas políticas públicas? Pelo volume reduzido de produção e pela grife, naturalmente que não.
De qualquer modo, no universo automotivo, não é só a Ferrari que vive de consumidores que ocupam o topo da pirâmide econômica de qualquer parte do mundo. E as concorrentes também têm cedido cada vez mais às ditas oportunidades de mercado, talvez com mais acuidade na hora de bater o martelo sobre um novo projeto que contemple demanda e tradição.
Mesmo com quatro portas e cinco lugares, o Luce não nega a esportividade Ferrari com seus 1.000 cv de potência máxima e velocidade máxima acima dos 310 km/h, números pelos quais a marca cobrará a partir € 550 mil.
Os primeiros compradores — chineses ou não — receberão o carro somente no último trimestre deste ano.
E os investidores da Ferrari esperam que sejam muitos, assim como torcem para que o controverso desenho do Luce entre para a história apenas como uma “saída de frente” do ponto de vista do estilo, sem consequência econômicas maiores.
Aposta em novos consumidores
É a história do vão-se os aneis e ficam os dedos. Afinal, mesmo a Ferrari é um negócio, ainda que a paixão de muitos. Como tal, estará sempre sujeita a riscos maiores do que numa pista de corrida e à vontade do mercado, caso queira estar no mínimo em pé de igualdade com o concorrente, que já estão sem aneis há um bom tempo.
Enrico Galliera, diretor de marketing da Ferrari, afirmou no lançamento que o Luce tem como público-alvo especialmente os consumidores que já possuem carros elétricos e que somente 10% da produção do modelo serão destinados às revendas da China.
A declaração evidencia, portanto, que até mesmo os tradicionais compradores ocidentais dos superesportivos da marca, historicamente prioritários e que consumiram mais de 80% das 13,6 mil unidades vendidas em todo o mundo em 2025, agora estão em uma segunda prateleira.
Foto: Divulgação
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