Indústria

IA na indústria automotiva: Brasil em encruzilhada entre risco e oportunidade.

Conselheira Tânia Cosentino entende que a rentabilidade passa a estar na tecnologia, hoje, emergente e urgente

A inteligência artificial deixou de ser mais promessa futura para a indústria automotiva. É realidade presente que está redefinindo rentabilidade, segurança e competitividade global. Na palestra “IA e as 5 Rupturas da Indústria Automotiva”, apresentada durante o Anfavea Visions, a conselheira independente e ex-presidente Microsoft Brasil, Tânia Cosentino, traçou um diagnóstico contundente: enquanto a China domina 69% do mercado de veículos com assistência de direção nível L2, o Brasil fabrica apenas de 8% a 12% de carros com essa tecnologia. O abismo não é técnico, mas estratégico.

Carro como software: mercado de US$ 660 bilhões em jogo.

O automóvel de hoje transcendeu sua definição mecânica. “O carro é uma plataforma onde software e inteligência fazem parte da construção desse produto”, observou Cosentino. “Um veículo premium atual executa 200 milhões de linhas de código, volume equivalente a 30 Boeing 787 em complexidade de software.”

Segundo a conselheira, essa transformação move números astronômicos. O mercado de software, sensores e componentes eletrônicos automotivos atingirá US$ 660 bilhões até 2030, valor que praticamente dobra em relação aos patamares atuais. Hoje, essa fatia representa 8% do mercado automotivo total e deverá chegar a 17%. “Para o Brasil, a pergunta é incômoda: onde estaremos nessa redistribuição de valor?”, provoca Tânia Cosentino.

Segurança como negócio

Para a palestrante, a adoção de tecnologias assistidas não é luxo, mas imperativo para a segurança com impacto econômico direto. Dados do Departamento de Estradas dos EUA demonstram que direção assistida e frenagem automática de emergência evitaram 50% das colisões e 56% das colisões com lesões.

Essa redução de sinistros reescreve a economia do setor de seguros. Seguradoras têm incentivo claro para precificar veículos inteligentes de forma mais competitiva, criando ciclo virtuoso. Os consumidores buscam proteção familiar, a indústria investe em segurança, as seguradoras reduzem prêmios, as novas indústrias emergem. “O business case tem que ser construído como um safety case, transformando compliance em vantagem comercial”, sintetizou Cosentino

Agentes de IA: relevância ou desperdício.

A adoção de agentes de inteligência artificial na indústria automotiva enfrenta armadilha crítica, como sua implementação sem caso de uso definido. O Gartner, empresa global de pesquisa e tecnologia, projeta que 44% dos projetos de agentes serão paralisados até 2027 por falta de relevância e capacidade de escala.

“Colocar agentes sem um caso de uso forte, relevante, apenas joga dinheiro fora”, enfatiza a Cosentino. “A governança emerge como segundo pilar inegociável. Agentes aprendem, executam e podem agir de maneira autônoma. Isso é especialmente perigoso em funcionalidades relacionadas à segurança humana. Sem proteções adequadas, o risco não é apenas financeiro, mas reputacional em escala catastrófica.”

Segurança cibernética

A conselheira reforça que cada dispositivo conectado é um ponto de vulnerabilidade para o crime cibernético, ação que movimenta US$ 10 trilhões globalmente. Um carro inteligente, portanto, por mais sofisticado, é um alvo potencial.

De acordo com Tânia, a indústria automotiva enfrenta duplo desafio: proteger suas operações de ataques e construir produtos seguros por design. “Segurança cibernética não é tema de TI, é tema do negócio. A capacidade de fabricar, pagar fornecedores, emitir faturas — tudo pode ser paralisado por um ataque bem-executado. Além disso, veículos inteligentes exigem atualizações de segurança ao longo de sua vida útil e educação contínua do consumidor sobre riscos.”

Oportunidades e atenção

Tânia Cosentino provoca se a transformação em andamento coloca o Brasil em atraso ou se proporciona oportunidades. Responde ser um pouco dos dois, mas pontua atributos únicos do País que representam vantagens competitivas:

  • Matriz energética limpa – 85% de fontes renováveis. Um carro elétrico brasileiro não depende de termoeletricidade, vem de hidrelétricas, eólicas, solares. Mas o grid precisa dobrar de tamanho até 2030 e garantir resiliência.
  • Biocombustíveis – Etanol oferece alternativa verde sem dependência exclusiva de baterias. Mobilidade de baixo carbono pode combinar combustão renovável, eletricidade e hidrogênio.
  • Base industrial estabelecida – Diferentemente de muitos países, o Brasil já possui indústria automotiva consolidada há décadas, agora atraindo novos investimentos.

Mas também de atenção:

  • Minerais críticos e terras raras – O Brasil é segundo maior produtor de terras raras (21% das jazidas globais) e rico em minerais críticos para baterias. A China beneficia 90% das terras raras e fabrica 90% dos ímãs permanentes — enquanto o Brasil exporta matéria-prima bruta.

Aqui reside uma frustração de Cosentino: “Realmente me dói o coração ver com matriz energética renovável, riqueza de minerais críticos e a gente exporta tudo isso para comprar o produto acabado.”

“O Brasil poderia ser líder em mobilidade de baixo carbono. Mas para isso, precisa dominar cadeia de valor, não apenas montagem de chips, equipamentos eletrônicos e baterias. Não é necessário controlar tudo, mas importar componentes e montar localmente não gera riqueza nem garante rentabilidade.”

Retenção e atração de talentos

Para Cosentino, a transformação digital exige engenheiros mecânicos, elétricos, cientistas de dados, matemáticos, físicos, estatísticos, “um animal raro em extinção no Brasil. Sem recapacitação de talentos e atração de novos profissionais, nem tecnologia nem investimento compensarão a escassez de expertise.”

Tânia Cosentino encerrou sua apresentação com uma advertência que ecoa além do setor automotivo: “O Brasil não perde oportunidade de perder oportunidade. Mas perder essa oportunidade pode ser muito custoso para as futuras gerações.”

Segundo a conselheira, a indústria automotiva brasileira está em encruzilhada. O Brasil pode escolher: continuar fabricando commodity automotiva ou liderar transformação de mobilidade de baixo carbono. “A escolha, porém, exige ação integrada entre governo, indústria com visão de cadeia, educação recapacitando talentos e regulação acelerando adoção. Caso contrário, a IA na indústria automotiva será história de oportunidade perdida.”


Foto: Divulgação Anfavea

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Publicado por
Décio Costa

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