Quando as primeiras indicações de uma nova doença apareceram nos noticiários em janeiro, mostrando hospitais cheios na cidade de Wuhan, na China, com 1.000 infectados e 30 mortos, já existiam pessoas contaminadas em vários países, inclusive no Brasil. A vida prosseguia por aqui com as complicações transferidas de 2019: baixa expectativa para o PIB, incertezas políticas e atraso nas reformas modernizantes tão necessárias.

O carnaval aconteceu normalmente de 20 a 25 de fevereiro, mesmo com várias informações dando conta de que esta não era uma simples gripe. A declaração de pandemia veio no dia 11 de março e alguns governos estaduais começaram a se preparar para uma possível exaustão dos recursos hospitalares, enquanto o governo federal, preocupado com o tamanho do impacto econômico, se envolvia em embates políticos e minimizava a real gravidade da situação. Faltavam máscaras, mas não existia a obrigação de usá-las. Ninguém tinha a real perspectiva do que estava por vir.

Mais 10 dias e tudo mudou. O crescimento de contágios e mortes avançou de forma tão veloz que forçou a decretação do isolamento a partir de 20 de março em algumas cidades. O mundo desabou para o mercado automobilístico. Os últimos 10 dias de março tiveram perdas de 55%, quando comparadas ao previsto.

Abril e maio foram ainda piores, com vendas descontinuadas da ordem de 70-75% e grande atraso nos emplacamentos por conta do fechamento dos Detrans pelo País. Junho e julho mostraram recuperações conforme previsão da Bright Consulting, bastante acima das demais previsões e das associações do setor, menos otimistas. Rumamos para os 2 milhões de unidades em 2020.

A recuperação do volume anual se atrasará mais de 3 anos e virá em um ritmo lento. Abaixo, segue uma comparação entre o que se previa antes da pandemia e as nossas expectativas para 2020 e anos subsequentes.

Volumes em milhões 2020 2021 2022 2023
Projeção Jan 2020 2,89 3,12 3,34 3,54
Projeção Ago 2020 2,00 2,36 2,59 2,79
Variação -31% -24% -23% -21%

As perdas de 31% em 2020 se atenuam a 21% em 2023, mas com um atraso permanente ao crescimento inicial. Nosso recorde de 3,6 milhões não será quebrado antes de 2029. Iniciativas mais rigorosas como lockdown teriam preservado nossos hospitais e recuperado o mercado mais cedo. Mas quem teria a coragem de decretar isso, dada a nossa instabilidade política?

Novos formatos, nova abordagem

O que os consumidores pretendem comprar após a crise? Teremos uma demanda restrita pela receita das famílias e preços mais elevados devido ao repasse do dólar alto. Para conter o preço, os veículos terão um nível menor de equipamentos em um primeiro momento, embora o desejo por SUVs com os equipamentos mais desejados permaneça na ordem do dia – nada além disso.

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O segmento de pequenos e de compactos continua liderando o mercado por força do orçamento das famílias. Saem ganhando os produtos com maior conteúdo local e que consigam gerenciar melhor a explosão do dólar. Petróleo menos caro, orçamento escasso, falta de política favorável ao setor e novamente o dólar supervalorizado forçam um atraso nos elétricos individuais.

Maior atenção será dada aos meios públicos de transporte, com fortalecimento da mobilidade on-demand – especialmente a micromobilidade, com bicicletas, patinetes e similares. Se agora temos uma retração dos serviços como Uber, essa queda é temporária e deverá se reverter depois que a vacina contra a Covid-19 estiver disponível.

Se o volume da indústria vai demorar a se recuperar, as rotinas de escolha e de compra deverão seguir a outro patamar. Por quanto tempo os efeitos da pandemia afetarão as escolhas para um veículo? Existirá um reset acelerado, ou essas experiências determinarão um novo comportamento permanente do consumidor? Qual caminho trará mais benefícios para o setor? Quais serão os reveses?

Muda a forma de vendas de automóveis, com maior ênfase à gestão virtual. Em primeiro lugar pelo receio de contágio, mas também porque os compradores estão percebendo que podem comprar carros dessa forma. É uma mudança que veio para ficar.

Os grandes showrooms cederão lugar a espaços menores onde serão exibidos os modelos mais sofisticados e as unidades de experimentação pelos clientes, inclusive com a possibilidade de um aluguel subsidiado para um test-drive durante o fim de semana.

Esses conceitos estarão no cotidiano dos executivos do setor durante os próximos meses e implicarão na redução dos investimentos em instalações grandiosas para as concessionárias. Num prazo mais longo, será menos necessária a presença do cliente na concessionária, através de agendamentos mais flexíveis, com leva-e-traz, que permitirão que serviços sejam realizados à noite, quando o cliente não precisa do carro.

A Bright Consulting também vai descrever os efeitos na legislação, na concepção, no novo sourcing patern e no descarte previstos para o carro nacional.

Serão adiados os objetivos de eficiência energética e emissões? O que isso representa para os consumidores e para os fabricantes? Aumentará a localização de componentes? Teremos mais ou menos desenvolvimentos no Brasil? O Projeto Restart abordará cada dimensão desse reinício com os riscos e oportunidades associados a cada evolução. Venha trilhar esse caminho com a gente. O Projeto AutomotiveRestart começa agora.


Foto: Pixabay