Faz tempo que as micro e pequenas empresas (PME’s) do setor de autopeças passam por momentos difíceis e com muitos desafios que podemos também chamar de comorbidades:
• Falta de visão consistente sobre o futuro do mercado, seja de curto ou médio prazo;
• Sem acesso à programação adequada dos pedidos de compra vindos dos clientes Tiers 1 e 2;
• Necessidade de criar estoques reguladores para evitar perda de vendas;
• Incapacidade de repasse de custos e consequente falta de capital de giro;
• Limitada capacidade de investir na evolução produtiva, organizacional, tecnológica e de gestão de pessoas.

É premente que montadoras e sistemistas se conscientizem de que a sucumbência das PMEs quebra um elo da cadeia que, por longo período, trouxe o terror às linhas de montagem: a parada de linha de produção no meio do dia pela falta de componentes de baixo valor agregado, quando comparado com os subsistemas de carroceria, chassi e “powertrain” já presentes nos “conveyers” e prestes a finalizar a montagem final do veículo.

O Programa de Projetos Prioritários (PPPs) do Rota 2030 lançado oficialmente no dia 20 de setembro de 2019, é um alento pois permitirá a aplicação de aproximados R$ 200 milhões por ano em projetos. “Será um potente indutor para incentivar o desenvolvimento de tecnologias avançadas no País que vão aumentar a nossa competitividade”, de acordo com Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea.

Não se discute a importância dos PPPs, mas o programa definitivamente não ataca os principais problemas das PMEs detalhados acima.

A indústria foca na evolução tecnológica do setor para aumento da competitividade, o que nos assegurará igualdade de condições para participar dos acordos de comércio com blocos de regiões desenvolvidas como o Mercado Europeu.

No entanto, enquanto montadoras e Tiers 1 estão migrando para a indústria 4.0, uma grande parcela das pequenas e médias empresas de autopeças têm ainda que evoluir da indústria 2.0 com substancial melhoria do processo de gestão.

Para acompanhar a evolução do setor, as PMEs precisam de recursos financeiros reais advindos da melhoria dos resultados positivos de suas operações. Os desafios que os gestores dessas empresas enfrentam não podem ser subestimados. Não precisa ser gênio para entender que o ponto da virada é quando estas empresas conseguem um bom acordo de vendas, renegociação de margens ou um novo negócio.

Antes da digitalização abrangente de suas operações, as PMEs precisam de informações robustas e confiáveis a curto e médio prazo sobre o mercado, programas firmes de produção e condescendência em repasse de custos que lhes garantam flexibilidade e tempo para a tomada de melhores decisões e, consequentemente, obtenção dos resultados que suportarão sua evolução futura para uma nova era.

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Aqueles que querem paz devem se preparar para a guerra! Caso contrário, a sina do setor será a de importar de parafusos a arruelas.

PMEs (Tier 3) da área de autopeças convivem com problemas inimagináveis em um setor no qual tecnologia é a palavra do momento e avanços na gestão são a premissa para a sobrevivência e devem atacar rapidamente ao aspectos críticos da gestão, ou sejam:
• Fluxo de caixa insuficiente para tocar o mês em curso;
• Falta de programação de curto prazo dos clientes;
• Falta de repasse de custos para atingir break even;
• Desconhecimento da aplicação dos seus produtos, intermediários na cadeia;
• Manufatura de urgência, sem gestão organizada das linhas de produção;
• Incapacidade de medir a eficiência das fábricas;
• Falta de um plano de comunicação e gestão dos recursos humanos.

As empresas, para sobreviverem, precisam de um posicionamento robusto perante os clientes com relação à proposição de valor e missão, definição clara de sua política comercial e relacionamento com o mercado.

O advento da Covid-19, aliado à desvalorização recente do Real, trouxeram a necessidade de que volume razoável de componentes de baixo custo e de menor conteúdo tecnológico, que tiveram seu sourcing alocado a regiões principalmente da Ásia tenham sua produção realocada no país.

No momento esta é uma grande oportunidade para que Tiers 3 com predisposição para alianças estratégias locais consigam a escala necessária para voltar a ser competitivos e conseguir novos contratos de longo prazo.

Os noticiários nos trazem todos os dias histórias que demonstram que comorbidades e Covid-19 não trazem um final feliz, e a consolidação da cadeia de Tiers 3 parece não poderá continuar acontecendo sem um mínimo de coordenação das montadoras e sistemistas.

Afinal, um dos grandes motivos pela atual situação das PEM’s de autopeças no Brasil foi causado pelas políticas de sourcing destes stakeholders.


Paulo Cardamone, Bright Consulting


Foto: Pixabay