e-Mobility virou o assunto da moda e os principais meios de comunicação, setoriais ou não, estampam diariamente manchetes de que o futuro do carro elétrico já chegou! Essa postura faz com que o público – e até mesmo muitos setoristas – passem a discutir a manchete sem nenhuma base técnica ao invés de se aprofundar no conteúdo que as matérias deveriam trazer.

Veículos de comunicação do meio automotivo têm – massivamente – tratado do tema carro elétrico como forma de atrair público e reforçar a captação de audiência. Por pressão de alguns players, fica implícito o objetivo de solidificar com muita antecedência a ideia de que a baterização da mobilidade é a única solução para a redução dos gases de efeito estufa, o que passa longe da realidade.
Que o futuro da eletrificação veicular é inevitável não há dúvida, mas o que temos visto nos últimos três anos é a preocupação dos reguladores internacionais, com destaque para os europeus, muito mais com os impactos econômicos e políticos do que com o ambiental, conduzindo por conveniência a tese de que a mobilidade elétrica acontecerá da mesma forma em todas as regiões do planeta, o que fundamentalmente não será possível.
Para atender a seus objetivos, o futuro da mobilidade sustentável tem que se ancorar em três pilares: o ambiental, o econômico e o social. Uma indústria centenária como a automobilística não pode ser esfacelada pelo poder de países de alta renda, com volumes de capital astronômicos, que passaram a subsidiar o mercado forçando a antecipação de fases evolutivas dos sistemas de propulsão para atender seus objetivos econômicos.
Motivos não faltam para reforçar esta tese como os desdobramentos do Dieselgate em 2015 e do risco de a China invadir os mercados desenvolvidos, no qual o europeu se enquadra, com seus veículos elétricos como única forma de se firmar de maneira proeminente no setor automotivo.
Tecnicamente, a abordagem aos sistemas de propulsão é complexa e diariamente vemos notícias que misturam emissões de CO2 com emissões de gases poluentes e eficiência energética com veículos de emissão zero como se tudo estivesse na mesma cesta – uma verdadeira trapalhada conceitual. Para cada um desses assuntos, ações, soluções técnicas e políticas diferem significativamente, mesmo que tenham objetivos conjuntos de busca pela mobilidade com minimização do balanço de emissões.
A falta de entendimento sobre os fundamentos da economia global debilita massivamente a tese de que a aceleração da eletrificação vai descarbonizar o planeta na mesma velocidade. Acreditamos que o futuro da mobilidade sustentável será uma combinação de soluções tecnológicas para diferentes segmentos de veículos, de mercados e da capacidade dos governos de investir nos distintos formatos de infraestrutura de suporte aos modais de transporte.
Futuro da eletrificação x Capacidade financeira
O carro elétrico não foi, não é e nunca será a única solução para o futuro do meio ambiente limpo que buscamos para o planeta. As decisões sobre qual solução escolher no futuro dependem da análise do ciclo de vida que, por sua vez, é consequência e depende da qualidade ambiental da energia consumida, que tem que ser de baixo carbono para movimentar o veículo, ao contrário do que meios de comunicação, associações e até montadoras propalam a todo dia considerando somente a emissão de escapamento de CO2 do veículo. Mesmo assim não existe veículo de emissão zero, pois os puramente elétricos dependem da intensidade de carbono da energia que consomem.
A defesa pela busca por soluções alternativas à baterização pura tem-se intensificado em várias regiões do planeta, sendo que podemos destacar a aliança nomeada de ‘Team Japan’, das fabricantes japonesas Toyota, Subaru, Mazda, Kawasaki e Yamaha, na busca por alternativas para manter ativo o mercado de motores à combustão no mundo. A aliança trabalha com a ideia de fomentar a procura de combustíveis alternativos biológicos ou sintéticos advindos de fontes de energia limpa e de soluções a hidrogênio, que sirvam para manter esta tecnologia viva e válida inclusive nessa nova era da eletrificação.
Recentemente, a Alemanha se contrapôs à ideia de banir veículos a combustão em 2035, opinião expressa pelo ministro dos transportes, Volker Wissing, confirmando o desejo de manter veículos com motores a combustão mesmo depois de 2035 uma vez que os mesmos sejam movidos exclusivamente com combustíveis sintéticos ou renováveis – BMW, Audi e Stellantis têm-se pronunciado no mesmo sentido.
A utilização de combustíveis neutros em carbono acaba assumindo uma outra relevância, que atende à frota de mais de 1,7 bilhão de veículos movidos à combustão interna atualmente em uso no mundo, sendo altamente superior aos de motorização elétrica para veículos novos, mesmo que essa diferença possa diminuir ao longo dos anos. No entanto, estamos falando de algo ao redor de 40 anos para que a frota de veículos a combustão possa ser totalmente substituída caso 100% dos veículos leves comercializados no mundo passassem a ser elétricos a partir de hoje.
Nossa visão para mobilidade puramente elétrica é a de que os investimentos em infraestrutura terão de vir antes da venda em massa dos veículos, uma vez que o mindset dos consumidores está vinculado à capacidade de reabastecimento durante o uso pleno do veículo, tese comprovada por pesquisas globais. Para se ter uma ideia do investimento em infraestrutura, somente na Alemanha até 2030, serão necessários aproximadamente 50 bilhões de euros para uma infraestrutura de abastecimento com apenas 30% de carregadores “fast charge” caso a frota hoje estimada de 25 milhões de BEV/PHEV se concretize. Este valor é equivalente a mais de 4 programas Auxílio Brasil.
Diariamente é divulgado na mídia que o Brasil não incentiva a eletrificação e que o país vai acabar com sua indústria e ficar no passado. No caso dos veículos de passageiros elétricos puros, o imposto zero aplicado hoje aos mesmos significa um benefício às montadoras 2 vezes maior ao benefício que hoje é dado na Alemanha e quase 3 vezes mais do que o ofertado nos EUA.
O benefício no Brasil aos veículos elétricos é um dos maiores do mundo e deveriam ser reorientados no curto prazo para os “híbridos flex” e no médio para os Fuel Cell a etanol que trarão reais benefícios aos consumidores e à indústria.

Paulo Cardamone é CEO da Bright Consulting


    Foto: Pixabay

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