Com a chegada das chinesas, a septuagenária e poderosa Anfavea não está conseguindo manter a hegemonia das últimas décadas como representante das montadoras instaladas no País.
Ao contrário, perde força para outras entidades, como a Abeifa, criada há 35 anos inicialmente para representar os importadores, e a ABVE, Associação Brasileira do Veículo Elétrico, fundada há menos de 10 anos.
A primeira tem a BYD como associada, marca que também é filiada à ABVE, assim como as chinesas GWM, GAC e MG, além da Ford, GM e Porsche, entre as marcas de automóveis.
A Anfavea não conseguiu até agora atrair nenhuma das entrantes chinesas e a disputa entre as entidades ganha novos contornos com o anúncio feito na terça-feira, 14, por Marcelo de Godoy, presidente da Abeifa, de que quatro marcas chinesas – além das já associadas BYD e Denza – estão em fase final de negociação para filiar-se à entidade.
São elas a Omoda & Jaecoo, Jetour, GAC e Zeekr, sendo que as três primeiras têm projeto de produção local, enquanto a quarta é do mesmo grupo da Geely, representada no Brasil pela Renault e já com números publicados no balanço da Anfavea, assim como a Leapmotor, da Stellantis.
Ou seja, uma confusão total se instala no mercado automotivo com toda esta divisão. A Anfavea garante que seus números passaram a contemplar este ano os dados de produção da GWM e BYD, mas as duas não são consideradas no quadro de empregos total das montadoras em operação no País.
Outra divergência é com relação aos eletrificados. Enquanto a Anfavea e a Fenabrave consideram os chamados híbridos leves, no caso os produzidos localmente pela Stellantis, a ABVE os ignora em seus relatórios de vendas.
Difícil até para quem acompanha o setor, visto serem necessárias sempre ressalvas nas informações referentes a empregos e eletrificados.
No caso da Anfavea, tem sido reincidente o confronto com a BYD, que no último embate — o da renovação das cotas com alíquota zero para importação de CKD/SKD — saiu vitoriosa.
Na última coletiva de imprensa, dia 7 da semana passada, o presidente da Anfavea, Igor Calvet, chegou até a criar expectativa ao iniciar sua fala com o anúncio de que a entidade tinha ganhado duas novas associadas.
A frustração entre os jornalistas ficou evidente quando ele anunciou duas empresas que não produzem automóveis, no caso JCB e Volvo CE, fabricantes de máquinas agrícolas e de construção.
Não que tais conquistas não sejam importantes, mas há praticamente um ano, quando BYD e GWM começaram a montar veículos aqui, imaginava-se de que elas engrossariam o quadro de associadas da Anfavea, reforçando a importância da produção local para o País.
Sempre que questionado sobre incentivos à importação e o motivo de nem todas as montadoras de automóveis estarem hoje na Anfavea, Calvet deixa claro que a entidade não discrimina empresas por origem, tanto é que tem marcas de diferentes países entre as associadas.
A questão é saber agora como vai caminhar a evidente divisão que se instalou no setor automotivo.
Com planos de produção já anunciados, GAC, Omoda & Jaecoo e Jetour dão sinais de que estão antecipadamente se respaldando na Abeifa, entidade fundada como Abeiva em 1991 exclusivamente para representar os importadores, que alterou seu nome em 2014 para abrigar fabricantes locais, entre as quais, na época, a Caoa Chery, atualmente filiada apenas à Anfavea.
Nesse contexto todo, importante lembrar que Igor Calvet é o primeiro presidente-executivo da Anfavea, ou seja, um profissional contratado e não alguém ligado a uma montadora como sempre foi tradicional na entidade. Uma mudança que ocorreu na última gestão, a de Márcio de Lima Leite, VP da Stellantis, quando os chineses já bagunçavam o setor automotivo brasileiro.
Imagem IA
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