Por George Guimarães | george@autoindustria.com.br

Os saudosistas devem, sim, se alegrar. Os carros alemães da Opel têm reais possibilidades de voltar a rodar no Brasil e nos demais mercados sul-americanos em futuro nem tão distante.

Quem assegura isso é nada menos do que Carlos Tavares, CEO do Grupo PSA e, portanto,  a melhor fonte de informação possível sobre os próximos passos que cercam o ex-braço europeu da General Motors por quase 90 anos e que aqui teve representantes como, por exemplo, Chevette, Monza, Corsa e Vectra, vendidos sob a marca Chevrolet.

Em rápida visita de três dias ao Brasil nesta semana, Tavares reconheceu que os produtos da marca alemã, oficialmente comprada pela PSA em agosto do ano passado, estão na mira e nas planilhas da divisão latino-americana, que desde o começo deste mês é presidida pelo engenheiro Patrice Lucas.

Lucas vinha respondendo desde 2014 exatamente pela vice-presidência mundial de programas e estratégias. Foi, assim, um dos articuladores das negociações que culmiram com a compra da Opel-Vauxhall,  que fabrica e vende anualmente perto de 1 milhão de veículos das duas marcas, a quase a totalidade na Europa.

Tavares assumiu o Grupo PSA em 2014, depois que, envolvido em grave crise de gestão, esteve ameaçado de encerrar suas atividades em 2012. Com o austero plano de recuperação “Back in the Race”, que reduziu drasticamente custos, oferta de produtos e tamanho das operações,  trouxe  novamente o azul  para os balanços anuais do conglomerado francês, a ponto agora de aumentar seu lastro global com a compra da concorrente alemã.

 

Em  2016, o executivo deu o tiro de largada em uma segunda etapa de sua estratégia, denominada “Push to Pass”, que objetiva, sobretudo, a continuidade da expansão da lucratividade, mas agora associada também ao crescimento dos negócios e da participação em todo o mundo, com produção mais racionalizada e compartilhamento intenso de pouquíssimas platafaformas.

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O “Push to Pass” propõe ainda dobrar os volumes de vendas e triplicar a rentabilidade na América Latina até 2021. Para isso, a empresa se dispõe a ter 16 novos veículos no Mercosul até lá —  e 120 em todo o mundo. É nesse cenário de movimentos que os carros da Opel podem retornar à América do Sul, já que, futuramente, terão a mesma plataforma dos modelos Peugeot, Citroën e DS que a PSA pretende lancar daqui para frente na  região.

Serão reforços e tanto para a empresa em especial no Brasil, onde suas atuais duas marcas Peugeot e Citroën têm participação somada pouco acima dos 2%, a menor entre as montadoras generalistas que se instalaram aqui neste século.

O Brasil, maior mercado da região, afirma Carlos Tavares, continua a dar prejuízo para a montadora, ainda que o quadro tenha melhorado no último ano e a divisão latino-americana tenha retornado ao azul nos últimos três anos.

Tavares, obviamente, não detalha quais carros estarão nas linhas de Porto Real (RJ) e El Palomar (Argentina), que passa por atualização tecnológica orçada em US$ 320 milhões para fabricar modelos sobre a nova plataforma CMP a partir de 2019. Mas certamente já estão nessa conta, por exemplo, os utilitários Citroën Jumpy e Peugeot Expert, montados no Uruguai, e o novo C4 Lounge, fabricado na Argentina e que será lançado no mês que vem no Brasil.

Fabricar um Opel na região, assim, é uma questão de contas bem feitas, sugere o CEO da PSA. “Por que não? Está em aberto. Mas fará sentido apenas se tivermos a lucratividade que buscamos. Essa, de qualquer forma, é uma decisão do  responsável da operação [ Lucas]”, afirma Tavares, que, no entanto, admite um processo inicial de importação dos Opel.

Mas a julgar pelo que revelou Michael Lohscheller, CEO da Opel Automobile, durante a apresentação do plano de recuperação da empresa em novembro, as chances  de produção local em algum momento do médio prazo ou, antes disso, de importação para os mercados latino-americanos são consideráveis.

Afinal, se de um lado a Opel reduzirá de nove para apenas duas o número de plataformas até 2024 — umas delas a própria CMP confirmada para a Argentina —, de outro, segundo Lohscheller, ingressará em mais vinte novos mercados de exportação nos próximos quatro anos. Olhando o mapa-múndi, dificilmente um deles, ou até mais, não estará neste lado do globo.


Foto: Divulgação/PSA