Ainda novidade, os serviços de assinatura de veículos estão em franca expansão no Brasil. A modalidade, que inicialmente tinha como discretos provedores locadoras e seguradoras, ganhou força de um ano para cá com a criação de braços dedicados das próprias montadoras.

Ricardo Bacellar, KPMG

Bacellar: resistências cairão.

Nos últimos meses, os brasileiros foram apresentados a nomes como Sign&Drive (Volkswagen), Flua! (Fiat e Jeep) On Demand (Renault) e Kinto (Toyota), para ficar em lista reduzida. Com diminutas diferenças, em síntese eles permitem que o consumidor tenha um veículo novo sem gastar, dentre outros, com os custos do seguro obrigatório, IPVA e licenciamento a cada ano. Para isso, basta aderir a planos que podem chegar a 3 anos e limites de quilometragem por determinados períodos.

Esse modelo de negócio, consolidado em muitos países há alguns anos, tem avançado aqui mesmo sem maciços investimentos em publicidade e com a limitação ainda de alcances regionais. Por conta disso, deve crescer muito e rapidamente, entende Ricardo Bacellar, líder da área automotiva da KPMG no Brasil.

Nesta entrevista, o consultor analisa que o sistema de assinatura pode agregar mais consumidores ao mercado de veículos novos, sobretudo os de rendas mais baixas, e beneficiar toda a cadeia automotiva com a ampliação da produção, serviços coligados, e até viabilizar os carros elétricos no País.

Na prática, as assinaturas de veículos estão apenas estreando no Brasil. Qual papel elas poderão exercer no futuro do mercado de carros novos?

Tudo caminha para que esse modelo de negócio ganhe cada vez mais corpo. Isso porque está claramente atrelado à vontade do brasileiro, ainda, de possuir um carro próprio. Em uma pesquisa que fizemos em 2019, 80% dos consumidores consultados reveleram o desejo ter um veículo. A assinatura é, podemos dizer, um leasing travestido, com a vantagem de não ter o valor residual no fim. Em enquete que realizei recentemente no LinkedIn, 40% dos leitores que se manifestaram disseram ainda desconhecer o serviço.

É mais atrativo financeiramente?

E com muitas mais possibilidades. Na Europa, já existe assinatura não de um veículo, mas de pacotes de quilômetros rodados. Pelo mesmo contrato, pode-se optar por um carro econômico para o dia a dia na cidade e nos finais de semana pegar uma picape ou SUV para viagens com a família. Claro que o consumidor paga mais para ter essa flexibilidade, mas é um opção que ele tem.

Há outras?

É um serviço que não precisa ser limitado aos veículos novos. As empresas podem trabalhar com automóveis usados e, depois, oferecer ao assinante um carro mais novo ou de outra categoria, permitir ao cliente fazer “upgrades”, criar uma escada com degraus menores até chegar a um carro novo. E você conhece alguém que depois de ter um carro com câmbio automático trocou por um manual novamente? Só se for por necessidade.

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Mas as montadoras não estão criando mais concorrentes para suas concessionárias e para clientes importantíssimos como as locadoras?

Os desdobramentos poder ser incríveis para toda a cadeia. É um canal com enorme potencial de aumentar as vendas de automóveis, que passam a ser produtos menos custosos e “caberiam no bolso” de mais pessoas, em especial daquelas de renda mais baixa e que hoje não podem adquirir um carro ou não querem investir recursos em um produto que se desvaloriza. Mais gente com acesso ao carro novo, mais se produz, maior a frota, maior a demanda por autopeças e por serviços de pós-venda. As concessionárias teriam um universo também maior para se relacionarem e oferecerem outros produtos e serviços para ampliar as receitas.

E as locadoras?

De outro lado, é preciso ter uma boa gestão dessa frota toda de carros de assinatura. E nisso as locadoras saem bem na frente das montadoras. Haverá, talvez, a necessidade de uma reorganização das forças do setor, com consolidações e até fabricantes de veículos comprando locadoras. É um modelo em que consumidores, montadoras e parceiros ganhariam. As  seguradoras, por exemplo, teriam interesse que os assinantes subam nessa escada de produtos e categorias, já que ganhariam também ao oferecerem seguros para veículos mais caros. Poderiam, por exemplo, compartilhar custos de marketing com as provedoras de assinaturas.

Mas trocar a propriedade do carro pela assinatura não exigiria um processo longo de mudança de cultura?

Uma nova onda nunca substitui integralmente a antiga. Durante muitos anos teremos pessoas comprando seus própriod veículos, desejando ter a posse deles. Mas as resistências vão diminuir com o tempo, até pela própria renovação dos consumidores, basta olharmos para a nossa pirâmide etária. Novament: é também um modelo de negócios que faz mais sentido para a população de renda mais baixa. Sob este aspecto, se encaixa muito melhor no perfil do mercado brasileiro do que no europeu. A pandemia também deu um novo impulso para os brasileiros que já desejavam ter um carro próprio, mas que vinham migrando para serviços como Uber.

E não seria até mais atrativo para carros mais caros?

É bom lembrar que as marcas premium passaram ao largo da crise de vendas no Brasil gerada pela pandemia. O consumidor desse segmento não tem muita preocupação com taxa de juros ou variação do dólar. No médio prazo, acredito que as assinaturas poderão viabilizar, isso sim, a oferta maciça de carros elétricos, hoje com preços ainda muito elevados no Brasil. E, num segundo momento, quem sabe, criarem a massa crítica para a produção local, o que, por enquanto, é um quadro impensável.

Os atuais valores das assinaturas são compatíveis com o bolso do brasileiro?

Falta ainda uma engenharia financeira, digamos, mais agradável ao consumidor. As montadoras precisam parar de só pensar em produzir e vender carros e, sim, garantir a mobilidade. A oferta de veículos usados por assinatura poderia ser um primeiro passo para que o consumidor tenha acesso mais fácil à modalidade e ao carro novo.


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